21 Outubro, 2009

por entre as ruínas de santa cruz

"na costura da minha vida, mais um ponto.
no arremate do sorriso, mais um nó."

era de manhã. mal consegui acender meu cigarro.
lá estava eu, deitada no chão dum tapete que separava as salas de jantar e estar.
o cachorro latia, enquanto pessoas choravam e gritavam.
na casa, a movimentação era inquietante para quem acabara de bater as botas.

por favor, um pouco de ordem! – pedi, em vão!
tive um velório luxuoso. as pessoas falavam comigo.
o sepultamento também foi bonito!

entre um choro e outro, descansei abraçada a um velho travesseiro.
recebi um carinho nos cabelos, que mais serviu prum conforto quase eterno.
quase.

alguns segundos na memória daquela alma que já não existia mais.

dizem que reencarnei, mas não entendo disso, não.

há 17 anos alguém murmura camões [pra mim] em seus sonhos...

“alma minha gentil, que te partiste tão cedo desta vida, descontente, repousa lá no céu eternamente e viva eu cá na terra sempre triste.
se lá no assento etéreo, onde subiste, memória desta vida se consente, não te esqueças daquele amor ardente que já nos olhos meus tão puro viste.
e se vires que pode merecer-te algua cousa a dor que me ficou da mágoa, sem remédio, de perder-te, roga a Deus, que teus anos encurtou, que tão cedo de cá me leve a ver-te, quão cedo de meus olhos te levou.”

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