21 Julho, 2007

inalador: R$ 123,76 com desconto

roubadas rosas, penúltimo capítulo. [o último capítulo tem como título RIP - mais abaixo]

antonia abriu a porta de casa tremendo. não o via há dias pois sumira de casa após a grande revelação.
ele deu dois passos em sua direção. tinha pânico no olhar e a mandíbula travada.

ela devolveu seus olhares com ódio.
antonia suava sangue.
sangue de alma destruída.
destituída de vida, pra ser mais exata.

em seu coração duas enormes agulhas de tricô trabalhavam freneticamente rasgando seu peito ponto a ponto.
ponto cruz, da cruz onde fora pregada pelo carniceiro que roubara sua paz.
o silêncio daqueles dois corpos ainda vivos [sem vida] perturbava os anjos.
ele pegou na sua mão e a puxou pra si.

antonia não reagiu.

ajoelhou-se e a agarrou como numa cena clichê de filme de amor.
foi lentamente beijando cada centímetro de seu corpo, ainda sem saber se era antonia, catarina ou carolina.

um misto de fantasia e realidade fazia de sua mente uma explosão de cenas passadas a 78 quadros por minuto, num clipe sem nexo, terror, retrocesso, nada bossa nova e muito róquenrôu.

antes mesmo de imaginar o que seguiria, antonia já parecia morta e suas lágrimas não tinham força pra regar seu belo rosto.

num breve lapso de consciência ele repetiu chavões de amor:
[diz que ainda me ama!]
[me perdoa!]
[eu amo vocês três tanto que dói!]
[não sei mais viver sem você]

uma incontável repetição de frases de novela barata.

e um dos últimos diálogos:
[sem você eu não consigo mais respirar!]

antonia puxa o ar [que foi feito só pra ela], o olha com desprezo, afastando-se e diz:
compra um inalador!

dá um chute em seu peito egoísta, o derruba e vai pro quarto até que ele saia pra voltar 2 dias depois completamente dominado pela doença do amor e da loucura.

continua... em RIP.

20 Julho, 2007

os 31 de antonio

dia 21 de julho. aniversário de antonio.
a comemoração deu-se num bairro do rio de janeiro.

sábado de sol na praça general glicério, o lugar predileto de valentina.

o chorinho estava prestes a começar e antonio mostrava desânimo sentado no banco com seus amigos em volta.
valentina, como uma criança elétrica, falava sem parar com seus cabelinhos ralos e pretos sacodindo no rabo de cavalo.
a distância entre os dois era de mais ou menos 6 metros...

6 metros? sim, às vezes 6 metros podem fazer a diferença.
ELA poderia estar a 12.ooo quilômetros! como seria?
bem, ninguém se importa com o que não foi.

o viu ali, tímido e quieto.
um sorriso encantador e a alegria falsa no ar.
seu desejo de estar apenas com uma pessoa no seu ano novo parecia estar estampado na cara.

os instrumentos começaram a chorar.
valentina inebriada queria apenas se aproximar daquele moreno que tanto a encantou.

sem motivo. motivo pra quê?

flauta vai, cavaco vem.... toma coragem [ela] :

caminha imponente com seu cabelo desgrenhado e levemente desajeitada até ELE.

e diz: por que você está usando uma camiseta preta nesse calor?

antonio, tímido, responde: não sei. hoje é meu dia. me arrumei um pouco.

valentina sorriu e decidiu ouvir o lindo choro da manhã ensolarada do sábado ao lado daquele jovem aniversariante.

caiu a tarde.
caiu o choro.
caíram as flautas e os violões de sete cordas.
caíram os amigos de antonio.

ficaram em silêncio.

os dois.

valentina e antonio.

na praça já não havia mais nada.

antonio a olhou e disse: teu sorriso ilumina a praça vazia.
quiçá, minha vida.

valentina respondeu: não quero mais chorar.
quero a tristeza que balança.
aquele tal de samba que vinicius [o de moraes] falou.

beijaram-se.
ali, o amor não precisava ser construído.

amaram-se pela primeira vez.
cartola na vitrola.
sorrisos e carinhos.
antonio ganhou seu presente de aniversário.

33 anos depois, valentina e antonio ainda dão voltas de mãos dadas pelas laranjeiras.
se olham e quase que choram o choro bonito da música que os inebria...
... num amor embalado pra viagem que durou a vida toda....

ao som do tom e de seus amigos....

10 Julho, 2007

banaliz.ama.ndo

gostaria muito de entender essa coisa de banalizar o amor.
de verdade.

[eu te amo] pro cara que te deu lugar na fila quando você tá com pressa, ok.
[eu te amo] pra amiga que livrou tua cara de um vexame, ok.
[eu te amo] praquele neguinho que te deu um freela que salvou teu orçamento do mês, ok.
[eu te amo] prum amigo novo e sincero, muito ok.

:::

[eu te amo] pro flávio em março, NADA ok.
[eu te amo] pro chico em abril, NADA ok.
[eu te amo] pro andré em maio, NÃO PODE!

[eu te amo] é o caralho!

[eu te amo] é AMOR.
[eu te amo] é dito olhando nos olhos. e não é todo dia.
[eu te amo] é pensado. é na cama. é com os olhos fechados.
[eu te amo] é com o peito ardendo.

daquele de ser cafona, daquele de doer, daquele de largar tudo, daquele de ter filhos.
e eu também não entendo nada de amor, não.